Por Viviane Vladmirschi

tjTJ Bliss é diretor de disseminação e eficária do investimento social de REA no Programa de Educação da Hewlett Foundation, principal organização privada que financia educação aberta no mundo. Foi diretor de avaliação do Departamento de Educação no estado de Idaho (EUA), responsável pelo desenvolvimento de pesquisas de avaliação de habilidades de aprendizagem profunda entre um consórcio de cinco estados.

Ph.D. em pesquisa educacional, medição e avaliação vem realizando estudos sobre livros didáticos digitais abertos, e também sobre impacto de uso de REA em todos os níveis educacionais.

Qual é a missão da Hewlett Foundation e como a educação aberta e os recursos educacionais abertos se alinham a ela?

A Hewlett Foundation apoia organizações que estão tentando solucionar alguns dos maiores problemas do mundo e, de forma mensurável, melhorar a vida das pessoas. REA (Recursos Educacionais Abertos) e a educação aberta se alinham muito bem a essa missão porque o objetivo de REA é aumentar o acesso ao conhecimento, proporcionar novas competências e habilidades aos alunos, além de promover formação e aprendizagem de pessoas no mundo todo. A Fundação Hewlett têm se focado em apoiar a educação há 50 anos e os REA têm sido parte da nossa estratégia e abordagem nos últimos 15 anos. O foco específico de nosso programa educacional vem evoluindo de tempos em tempos. Há 15 anos, com o investimento no MIT e em outras instituições que estavam trabalhando em como aproveitar ao máximo a Internet e as habilidades digitais e com isso promover conteúdo aberto e as licenças abertas levou o programa educacional da Hewlett Foundation a se focar em REA por muito tempo com muito dinheiro. Também priorizamos projetos que visem desenvolver aprendizagem profunda e atualmente grande parte de nosso investimento é no ensino básico nos EUA, envolvendo aprendizagem profunda a partir de competências básicas que esperamos que os alunos aprendam e REA tem uma conexão com isso à medida que ressalta o protagonismo autoral na cultura digital.

Como vocês definem “aprendizagem profunda”?

Aprendizagem profunda significa que os alunos estão usando plenamente os conhecimentos adquiridos e as habilidades desenvolvidas para solucionar um problema concreto da vida real. Ao dominar o conteúdo academico, que envolve leitura, escrita, e diversos temas como matemática ou ciências, eles também são engajados a exercitarem o pensamento critico, a colaboração, a comunicação, a auto-estima. Todos os estudantes devem ter oportunidade de ter sucesso em um mundo constante transformação. Muitos estudantes hoje serão convidados a postos de trabalho que ainda nem podemos imaginar quais serão. Serão também convidados a ser resolver problemas relacionados a alterações climáticas e à pobreza global. Trata-se de um compromisso de formar estudantes preparados para o mundo lá fora, seja qual for a situação que aparecer

Há um projeto REA em execução de autoria da Fundação Hewlett ou vocês financiam projetos diversos?

Não temos um único projeto. Nosso papel é fazer alianças, parcerias com diversas organizações comprometidas com a causa. Financiamos e apoiamos muitos projetos REA e todos são bem diferentes, o que é muito bom, pois cada organização tem liberdade para definir suas prioridades. Alguns estão inter-relacionados de alguma certa forma, mas tudo para nós começa com uma estratégia e com uma teoria de mudança e algum tipo de modelo lógico ou algum objetivo que queremos atingir junto com uma outra organização e, com base nesses objetivos estratégicos, vamos trabalhar juntos para determinar quais são as métricas mais apropriadas para medir o sucesso. Às vezes é muito desafiador fazer isso especialmente em relação à um trabalho que envolve política, nós financiamos muitas instituições que trabalham com advocacy e construção de alianças e sempre que podemos tentamos estabelecer métricas, pedimos a cada uma das organizações financiadas um descritivo das metas que esperam atingir com seus projetos e quais seriam os objetivos principais. Acompanhamos tudo muito de perto e de maneira muito regular. Anualmente, convidamos todas as organizações que financiamos e atuam com REA a se juntarem e compartilhar suas ações para fomenter a colaboração entre elas

Quais são os valores embutidos nos projetos REA apoiados pela fundação?

O valor que vem de cada projeto varia de acordo com cada um deles, ou seja, com a forma como foi concebido. Alguns projetos têm como valor a produção efetiva de REA, conteúdo de alta qualidade que acaba sendo adotado. Outros projetos têm valor porque conseguiram mudar uma política institucional, ou porque conseguiram juntar pessoas para trabalharem em conjunto para resolverem um determinado problema. Considerando que os projetos diferem um do outro e o valor embutido desse projetos é diferente e às vezes estes projetos se misturam e se interrelacionam de formas interessantes e possuem um valor sinergético quando as organizações começam a trabalhar em conjunto em função de objetivos em comum mas seria difícil descrever qual seria o valor especifico embutido, poderia ser para qualquer projeto. Neste momento temos 35 organizações trabalhando em vários projetos diferentes, a qualquer hora somente neste portfolio (REA), então há muitas organizações e pessoas envolvidas, além de diferentes metas que estão tentando atingir todos com o objetivo de tornar REA uma prática comum e também tentando mudar a prática na sala de aula de forma geral.

Você poderia nos dar exemplos de projetos ou atividades que considera exemplares? Quais são motivo de orgulho para a Fundação Hewlett?

Fico feliz em falar sobre alguns dos projetos que foram super bem sucedidos e acho que não conseguiria responder qual deles seria maior motivo de orgulho para nós, seria que nem um pai falar de qual filho ele tem mais orgulho. Nós financiamos organizações que são de alto impacto, que são muito produtivas e que estão fazendo um trabalho realmente surpreendente e seu trabalho é simplesmente diferente. Exemplos de projetos que vem à mente que consideramos que foram bem sucedidos num passado recente, o trabalho da universidade de Rice e o OpenStaxCollege, eles tem por objetivo produzirem livro didáticos abertos para educação básica e superior e depois trabalharam para que o docentes adotassem estes livros didáticos nos EUA e também em outras partes do mundo. E eles atingiram esses objetivos e foram muito bem sucedidos. E tiveram um grande impacto em alunos nos EUA e agora estão começando a atingir alunos em outras partes do mundo também. Outros organizações e projetos que foram bem sucedidos no ensino superior, incluem a Open Textbook Network (Rede de Livros Didáticos Abertos), que uniu bibliotecas e universidades de toda América do Norte para serem parte de uma rede focada em REA. E o trabalho de orientação feito pela BC Campus, que funciona exclusivamente na Colúmbia Britânica, que promove a adoção de livros didáticos abertos lá.

Alguns exemplos no ensino básico e na política pública também?

Sim, como o “Engage New York”, cujo material elaborado foi adotado por escolas no país todo. E, em termos de ações, estou muito empolgado com o trabalho que vem sendo realizado pelo Commonwealthof Learning, junto a universidades, instituições e escolas em todos os estados do Commonwealth em todas as partes do mundo para trazer mais igualdade e acesso e oportunidades à educação. Alinhado com isso está o trabalho que a Foundation for Learning Equality tem feito para promover o uso e adoção de REA em contextos offline onde não há uma acesso fácil à Internet. E temos também uma política de coalizão para advocacy aqui nos EUA que compõe 7 ou 8 organizações que têm trabalhado em conjunto para construir uma base de conhecimento sobre licenças abertas para aqueles que estabelecem políticas e agências federais nos EUA e este é um trabalho super excitante também. Tenho orgulho de todos e acho que o fato de podermos ver como eles trabalham juntos e como eles trabalham em seus setores separados mas para atingir um objetivo em comum é uma das melhores coisas do movimento de educação aberta. Certamente há desacordos e nem todos sempre pensam da mesma forma, porém há um sentimento de um objetivo comum, um fim comum ou ao menos uma filosofia comum em torno da ideia de abertura e educação aberta e qual seriam seus benefícios para a sociedade. Também financiamos uma rede de pesquisadores que querem estudar REA.

Existe algum projeto apoiado nos países em desenvolvimento?

Sim, claro. O Commonwealthof Learning trabalha com vários países em desenvolvimento. Também financiamos o Instituto de Educação a Distância da África do Sul (SAIDE) que trabalha com vários países em desenvolvimento na África e financiamos a UNESCO que também trabalha com vários países em desenvolvimento ao redor do mundo e foca em promover e incentivar os governos, mais especificamente os Ministérios de Educação para que considerem o potencial e o poder de REA nestes contextos.

Como seria na sua opinião uma parceria exemplar (ou saudável) entre a iniciativa privada, o poder público e ONGS na área de REA?

Eu acho que primeiramente deveria haver um relacionamento entre o setor privado, o setor público e as ONGS. Minha experiência até agora é mais em relacionamento entre o setor público e as ONGS. Um bom exemplo disso é o trabalho de política de REA e advocacy de coalizão que está sendo realizado nos EUA por um grupo de ONGS que estão trabalhando com o setor público, mais especificamente agências federais do governo americano, em assuntos relacionados à política aberta e licenças abertas em geral. As ONGs estão focadas em ajudar essas agências federais a entenderem como implementar políticas que permitiriam que recursos educacionais financiados com recursos púbicos poderiam ser licenciados de forma aberta. As ONGS têm um grande papel a desempenhar ajudando os governos a fazerem isso.
O setor público têm uma papel ainda maior que poderia estar voltado à REA mais especificamente devido à maneira que o setor público é financiado. REA têm muito a ver com os “commons” e o que está disponível no “commons” e para bem comum e acho que o setor público deveria priorizar isso. Nesse sentido, fica talvez mais interessante ou mais confuso ou qual deveria ser o relacionamento entre o setor privado e as ONGS no campo de REA. A meu ver seria pelo foco em inovação. A Fundação Hewlett apoia especificamente aquele conteúdo que é licenciado da forma mais aberta através do uso de licença CC-BY que não restringe o uso commercial porque nós acreditamos que há muitas pessoas no setor privado que poderiam pegar conteúdo que é produzido com dinheiro de filantropia ou com dinheiro público para criar novas inovações e construir em cima disso e até para criar novos mercados. Consideramos isso muito importante. Definitivamente, há um importante papel para o setor privado desempenhar em REA e acho que estão começando a perceber isso principalmente em relação à adicionar valor a conteúdos com licenças abertas de formas que as pessoas não deveriam ter que pagar para acessar.

A quem cabe decidir a qualidade de um material REA, o público beneficiado?

Qualidade é uma palavra interessante que é frequentemente usada embora não haja um consenso do que ela realmente significa, nem todos concordam com seu significados. O termo qualidade infelizmente vem sendo associado a padrões. E acho que padrões são bons e importantes, e nós os apoiamos, mas não sei se estar alinhado com padrões é ter qualidade. Eu gosto como David Wiley define qualidade, ele diz que devemos nos focar mais em eficácia, o que significa qual seria o impacto do conteúdo em sala de aula. Qualidade pode ser ter imagens fantásticas, capa dura ou estar disponível em diversos formatos. Com certeza todas essas coisas dizem respeito à qualidade do material mas quando nos perguntamos o que realmente nos importa, a razão pela qual estamos fazendo isso, queremos que as pessoas tenham acesso à informação precisa e útil e útil também é outra palavra que depende do valor percebido pelo usuário. Queremos que o conteúdo educacional seja algo que ajude os alunos a aprenderem e ajude os professores a ensinarem e se isso acontecer, ele será de alta qualidade. As pessoas são quem decide o que é qualidade no final, são elas que usam o material.

O conceito de “inovação aberta”, como aponta o professor Henry Chesbrogh, já chegou na educação? O que ainda falta?

Acho que ainda temos um longo caminho a trilhar para que o conceito de “inovação aberta” chegue de fato na área de educação. Certamente há muitas pessoas que estão trabalhando em educação que diriam que elas estão fazendo “inovação aberta” e que estão usando essa abordagem e eu aplaudo seus esforços, acho que é para aí que precisamos ir. Um exemplo disso é talvez, uma atual abordagem aspiracional de “inovação aberta” para esse tipo de educação seria estruturar nossos sistemas educacionais para que fossem pautados em desafios grandes globais. E trazer os alunos para um ano de estudo para que pudessem resolver em colaboração um só problema. E a necessidade de “inovação aberta” nesse contexto seria real porque seria difícil neste momento não abordar outras áreas ou tópicos. Seria necessário trabalhar com e entender outras áreas ou tópicos para realmente entender esses tipos de problemas. Obviamente não chegamos ainda nesse estágio mas que REA e em geral educação aberta teriam que estar no centro desse tipo de sistema educacional onde “inovação aberta” é o modelo e REA precisaria ser o conteúdo. No ensino superior tenho visto mais inovações como o trabalho de trazer a Wikipedia e o uso da Wikipedia no contexto academico onde os alunos precisam editar e adaptar e também interagir com conteúdo proporcionando novas maneiras de interagir através da inovação. Essas então são algumas coisas que posso pensar em relação à essa pergunta. E poderiam estar fazendo isso também no ensino básico.

Você poderia falar um pouco sobre esta estratégia renovada para REA?

No últimos 15 anos, o foco em REA tem sido na construção de campo, e política para advocacy, e no financiamento de organizações que estão objetivamente focadas em REA e a maioria das organizações que estavam focadas em REA em algum momento provavelmente receberem financiamento da Hewlett para isso principalmente porque não haviam tantas organizações e também porque as organizações que estavam fazendo isso eram organizações extraordinárias que estavam tentando entender como fazer isso. Quando REA começou a ser uma prática mais comum nas organizações tornou-se necessário pensarmos como ser mais estratégico com os nossos investimentos e com o financiamento que provemos para REA e a como implementar de formas mais sistemáticas quem deveríamos financiar, ou não, o que é sempre uma decisão difícil mas ter uma boa estratégia pode te ajudar a tomar essa decisão, especialmente em decidir quais organizações não serão financiadas. Acho que a maior mudança na atual estratégia para REA tem sido na direção de enquadrar REA como uma solução para problemas chave na educação. Não importa se for ensino super ou ensino básico, decidimos focar no sistema de educação formal mais do que no contexto do sistema não formal de educação, embora este contexto também seja super importante, mas com o financiamento e recursos limitados que temos precisamos tomar essas decisões. Então no ensino superior estamos focando principalmente em livros.