Por Viviane Vladimirschi

henryO professor Henry Chesbrough é Diretor de Departamento no Garwood Center para Inovação Coorporativa na Universidade de Berkely – Haas Escola de Administração. Henry é pioneiro e pai do conceito e termo de inovação aberta.

Inovação aberta, segundo a concepção que o senhor trabalha, não significa, necessariamente, o uso de licenças flexíveis como CreativeCommons. No entanto, na sua opinião, haveria ou não ganho para a empresa que optasse por utilizar licenças flexíveis? Por que?

Claro que haveria. A maioria das empresas, especialmente as de maior porte, se protegem demais. Ao contrário, deveriam ser mais flexíveis e mais abertas, compartilhando suas ideias por meio de licenças de uso (nos EUA a lei permite a patententear ideias, no Brasil não). Eu geralmente licencio minhas apresentações e outras coisas em CreativeCommons simplesmente pedindo que eu seja citado e as pessoas ficam livres para remixar, usar para fins de pesquisa ou até fins comerciais. Parece que para fins acadêmicos isto faz muito sentido. Mas para empresas alguns dos benefícios seriam que a maior parte das ideias da maioria das empresas não são usadas, ficam meio que deitadas na prateleira acumulando poeira. Com licenças abertas e flexíveis, as empresas permitem que outras pessoas possam implementar essas ideias de alguma forma. E isso ainda pode ser um “input” valioso para a empresa autora das ideias que estão sendo usadas por outros, pois aponta caminhos para novas e diferentes maneiras de incorporar tais ideias e talvez de remixá-las e fazer coisas novas.

Como a inovação aberta acontece ou aconteceria na área de educação?

A educação abrange uma grande área e há muitos segmentos. Vou considerar o ensino superior nesta resposta. O modelo que usamos durante o século 20 e que continua até hoje é um modelo que quando alguém tem 22 ou 23 anos de idade, a pessoa se forma do ensino superior e, para a grande maioria, é só isso que acontece em termos da educação formal para o resto de sua vida. Isso até fazia sentido em um tempo em que a expectativa de vida era de apenas 40 ou 50 anos e, talvez uma vida profissional de somente 20 ou 25 anos. Mas, com o aumento da expectativa de vida ao longo dos anos, a validade do que adquirimos no ensino superior está ficando cada vez menor, sem falar na velocidade crescente de novas informações e conhecimentos que surgem. Por isso, a educação superior precisa constantemente ter um olhar apurado para a inovação, não somente no fornecimento de MOOCs e outros métodos de entrega, mas também na demanda por conhecimento para que as pessoas possam manter suas habilidades atualizadas ou para que possam aprender novas habilidades conforme forem envelhecendo. Pensar em uma única carreira durante a vida profissional tornou-se algo obsoleto. Já é possível ter 2, 3 ou 4 carreiras durante a vida profissional com treinamento e educação para apoiar essas mudanças e adequações constantes.

Qual o maior desafio para editoras de livros didáticos, por exemplo, optarem pela inovação aberta? O senhor conhece alguma experiência nesse sentido?

Uma oportunidade que vejo para editoras que querem adotar essa nova abordagem está vindo da União Europeia. Carlos Moedas, comissário da UE para ciência e inovação já disse publicamente que toda a ciência que for financiada na UE deveria ser de acesso aberto para todos na sociedade. Mas ele reconhece que isto significa mudar o modelo de negócio dos editores que lançam este tipo de conteúdo. Por isso, ele está tentando desenvolver novos tipos de modelos onde uma parte dos financiamentos investidos em pesquisa fique disponível para os editores para que eles possam publicar artigos com acesso aberto. Então ao invés de ficarem sem qualquer tipo negócio ou modelo de negócio o que o Moedas está propondo e dizendo é que precisamos de um novo e diferente modelo de negócio para os editores que querem adotar esta abordagem. E ele está tentando redirecionar uma certa quantia de financiamentos em pesquisa na UE para fazer com que isto seja possível. Para mim isto é um grande exemplo de um novo jeito de pensar que se for bem sucedido lá pode ser adotado em muitas outras partes do mundo bem rapidamente.

Temos visto aqui no Brasil o surgimento de muitas edtech startups, mas a maioria criando produtos prontos digitais para uso nas escolas. Que conselho o senhor daria a essas empresas?

Minha própria filha trabalha em uma edtech startup aqui em São Francisco. Uma empresa que se chama Clever. Minha resposta à sua pergunta é tanto em relação à minha própria pesquisa quanto às observações que faço da experiência dela no mercado da edtech startup. Uma coisa que diria é que há uma grande oportunidade para trazer e atrair os pais para que eles saibam o que está acontecendo com seus filhos. Especificamente em relação ao ensino fundamental e médio porque quando os alunos voltam para casa depois da escola são os pais que deveriam supervisionar, ou não, se os alunos estão fazendo sua lição de casa, como estão indo na escola etc. E se o professor, e os pais e o aluno estiverem todos conectados, eu acho que seria possível dar uma experiência melhor para o aluno. Haveria mais responsabilidade por parte do aluno e os pais teriam uma oportunidade de darem apoio e reforço a isso e o professor também poderia se comunicar diretamente com os pais para falar sobre o bom ou ruim desempenho do aluno. Assim poderíamos detectar problemas mais cedo antes que algo de sério aconteça com o aluno. Isto é algo que acho que seria muito atraente mas até agora a maioria das empresas edtechs tem ignorado os pais.

Poderia fazer uma analogia entre o PI da indústria e o DA das empresas que comercializam por exemplo, livros ou softwares didáticos? E qual seria o papel do governo, já que o investimento é público? Em sua opinião, como conciliar os interesses, público e privado, nesse caso?

O que acho vital na educação é que o DA não protege uma ideia. Só protege uma expressão particular da ideia. Então se eu escrevo um livro sobre inovação aberta eu posso conceder DA para as palavras que uso no livro mas não consigo proteger a ideia de inovação aberta no sentido mais geral. E outros podem ler meu livro e fazer outras coisas, criar outras expressões da ideia, e eu não tenho nenhuma habilidade legal de bloquear ou interferir com nada disso. E acho que é isso que queremos. Quando as pessoas pensam sobre inovação, eu sou conhecido como o pai de inovação aberta, mas se você fosse procurar algo sobre inovação aberta hoje há milhões de links e páginas apontando para coisas muitas das quais não tenho nada a ver. E se tudo tivesse que ter meu aval com a minha permissão não teria se difundido da forma que foi. É bom para a sociedade que esta ideia possa ser difundida de maneira ampla. Mas quem quiser achar uma expressão particular da ideia pode olhar para o meu próprio material e ver uma forma de definição. Se me derem atribuição eu ficarei muito feliz, não estou procurando por royalties, nem por dinheiro. Quando investimos em pesquisa, por exemplo em educação, é preciso garantir que os resultados sejam difundidos tão largamente quanto possível. Como condição de obter fundos para pesquisa, o pesquisador deve concordar em difundir seus resultados para todos. E isto significa que os editores precisam realinhar seus modelos de negócio para que possamos obter a divulgação de nossa pesquisa a pouco ou nenhum custo. O que os editores precisam fazer é achar maneiras para sustentar seus custos adicionando valor agregado em cima disso. Isso pode ser via guias de estudo, pode ser perguntas sugeridas para exames, pode ser dicas de como fazer algo, ou um plano de ensino que suplementa o material. Não vejo problema em cobrar por estas coisas pois agregam valor à aquela grande e larga infraestrutura que está disponível para o público e de fato quanto maior a base de conhecimento for mais valor agregado poderá ser dado a estas ferramentas e serviços adicionados. Em software de código aberto há uma empresa chamada RedHat que distribui uma versão do Linux e o código do Linux é essencialmente distribuído gratuitamente mas os serviços que agregam valor que são providos pela RedHat além do código do Linux são cobrados. Esta forma parece funcionar bem para todos pois eles tem um software de bem público que é compartilhado amplamente e são economicamente sustentados por um serviços que agregam valor.