Por Priscila Gonsales

diego_borinO site de financiamento coletivo Catarse, que acaba de completar 5 anos, foi o primeiro “negócio” de crowdfunding no Brasil que nasceu disponibilizando seu código de criação. Hoje temos vários outros, alguns focados em setores específicos como ONGs e sem taxa de serviço. No entanto, apesar de cobrar 13% sobre o valor a ser arrecadado, o Catarse segue firme e forte, sendo o preferido por 4 de 5 pessoas que resolver obter recursos para colocar seu projeto na rua.

Desde o início da fundação da empresa, vcs optaram por ser “open source”, algo que ainda causa receio por parte de iniciativas comerciais. Poderia contar um pouco essa decisão de abrir o código?

Anunciamos no Google Groups do CrowdfundingBR que os códigos-fonte do Catarse estava abertos, ou seja, estão disponíveis para qualquer pessoa acessar, propor mudanças ou utilizar como base para desenvolver seu próprio sistema. Fizemos isso porque a gente acha que esta é uma ótima maneira de desenvolver o crowdfunding no país. Por estarmos doando o trabalho que tivemos até agora, abrimos a possibilidade de pessoas que se identifiquem com o crowdfunding poderem agregar com seu trabalho para evolução da modalidade no Brasil. Também porque somos apaixonados por colaboração e isso não é só na hora de colaborar para apoiar os projetos e ajudá-los a acontecerem, é também no conteúdo do blog (onde várias pessoas já contribuem com posts), desenvolvendo o software e, cada vez mais, permeando outras das nossas atividades. Na verdade, a gente acredita que colaboração é a palavra do futuro – se já não for a do presente, né?

Ao permitir que outras iniciativas utilizassem o código, vocês consideraram que poderiam surgir uma série de plataformas oferecendo o mesmo serviço? Qual seria o diferencial de vocês nesse contexto?

Acredito que as possibilidades envolvendo crowdfunding são enormes e o movimento está apenas começando. Abrir os códigos é uma forma de impulsionar novas iniciativas. Por exemplo, é possível utilizar o que já está pronto para criar uma plataforma focada em crowdfunding para cursos ou eventos (mostras de arte, palestras, seminários, etc.). Isso seria fenomenal e praticamente ninguém atua nesses ramos. Acreditamos que seja possível sim aumentar o número de plataformas, mas, na verdade, o software em si não é uma barreira, pois é possível contratar uma empresa para desenvolver um sistema semelhante. O diferencial deve ser a percepção do público sobre qual quais plataformas conseguem agregar maior valor e as pessoas mesmo é que dirão quem deve permanecer no mercado. Quem não fornecer um bom serviço e, principalmente, não for motivado por paixão à modalidade, não se sustentará por muito tempo.

Como foi o processo de planejamento e elaboração do modelo de negócio? Quanto tempo levou esse processo? Como vcs organizaram isso até criarem o Catarse?

Foram 9 meses entre decidirmos fazer uma plataforma de crowdfunding e ela entrar no ar. A maior parte do tempo foi na busca por ter uma equipe. Acreditávamos que era essencial ter um desenvolvedor junto como sócio e foi só aí que demos o pontapé. A organização inicial foi bem simples. Mirávamos como modelo de negócio as outras plataformas de crowdfunding ao redor do mundo. O difícil era saber se teria gente pra criar e apoiar projetos via Catarse. Esse foi nosso teste chave. Enquanto o site estava sendo desenvolvido, criamos um blog pra gerar relevância no meio de empreendedores e conseguir os primeiros projetos. Era uma forma de organizar e expor nossas ideias e aprendizados sobre financiamento coletivo. No fim, entre fechar a equipe, lançar o blog e a plataforma, foram apenas 2 meses e 10 dias.

Poderia contar um pouco como vcs avaliam as experiências dos usuários e de que forma os “erros” de processo favoreceram a criação de materiais relacionados, como tutoriais, publicações etc?

O Luís falou sobre nosso processo de Gestão de Produtos nesse papo que fizemos na segunda. Ali tem muita coisa que responde a isso:https://www.youtube.com/watch?v=4ji2eJMxH3o. Nesse trecho (https://youtu.be/4ji2eJMxH3o?t=1h7m55s) ele entra um pouco mais em detalhes na relação da equipe de suporte (de onde vem muito desse conhecimento dos problemas dos usuários) e produto.

Quais os desafios para projetos baseados na construção e/ou articulação de rede na sua opinião? Em que sentido o modelo de negócio do Catarse pode inspirar modelos disruptivos na área de educação, por exemplo?

Acho que o desafio é que a mudança vem através de um processo contínuo que demora muito tempo pra ganhar corpo. Como o financiamento coletivo era algo novo quando começamos no Brasil, boa parte do nosso trabalho era pra explicar o conceito para as pessoas, ajudá-los a entender o modelo, as melhores práticas, os melhores usos. O modelo de negócio do Catarse pode inspirar modelos disruptivos na área da educação mostrando que ao se aproximar pessoas através de um objetivo em comum (no caso, os projetos que estão em captação na plataforma, com o objetivo de captar recursos), pode-se obter um resultado ainda mais amplo. Um dos maiores benefícios para quem empreende uma campanha de financiamento coletivo é permitir que pessoas se aproximem do seu projeto. A campanha costuma trazer um retorno para além do dinheiro. Ganha-se visibilidade e, principalmente, gente interessada em saber mais e até participar do seu projeto. Acho que o que está por trás disso é que quanto mais aberto você é, expondo o que você faz, a forma que você faz, mais você vai trazer pessoas pra perto da sua iniciativa.